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  • Samantha Capatti




Pensamentos sobre o "I Congresso de Artes-Manuais na Academia"


Quando me inscrevi no congresso não me dei conta da importância do que estava por vir. O congresso foi em um parque, em uma escola da prefeitura de São Paulo. Foi um fim de semana quente e ensolarado. Espaço aberto, salas com janelas para as arvores de fora, luz do sol, sombras das folhas, céu azul. Lá fora, balanços, parquinhos, passarinhos, terra. Fui recebida com muitos sorrisos. Eram na sua maioria mulheres. Senti um ar de companheirismo, um amor que vem de longe, de outras vidas, de uma missão em comum. Peguei um assento na sala, olhei para todas aquelas mulheres. Mulheres, presentes, juntas, falando sobre artes-manuais, sobre casa, sobre expressão, sobre libertação, sobre fios, sobre bondade, sobre crochê, sobre tricô, sobre tecelagem, sobre corpo, sobre ação, sobre silêncio…sobre revolução.


Eu me arrepiei com o discurso da Nina Veiga que iniciou o congresso. É isso! É isso que o tempo todo eu sinto desde que comecei a me dedicar as artes-manuais, à tecelagem. Era isso que eu escrevia no meu diário, nos meus papéis, era isso que eu desenhava. Ela sabia coisas muito intimas minhas, e elas, todas aquelas mulheres, sentiam também! Eu chorei. Chorei um choro que foi uma mistura de alegria, paz…e alívio. Alívio de saber que tudo aquilo que se passa na minha cabeça, no meu corpo, no meu coração enquanto eu teço é muito mais real do que eu imagino e que pode ser transformado em potência, em força de transformação.


Falamos sobre Artes-Visuais e Artes-Manuais. Falamos sobre a potência do menor, do mínimo, do aos poucos, das coisas sem aparência gritante, sem espetáculo, das coisas que são. Falamos da linha de fuga, da arte-manual como um lugar revolucionário e como construção da identidade. Falamos sobre descolar as artes-manuais do conservadorismo. Falamos de história e cultura. Falamos de fazer coisas sem motivo, do conceito de Inoperosidade de Agamben. Falamos de cuidado, de terapia, de educação. Falamos de dor, de envelhecimento. Falamos sobre inventar novas formas de vida , sobre usar a criação artística para criar outras realidades possíveis. Falamos sobre os pilares “encontro - silêncio - escuta - intuição”. Falamos sobre gestar, ser, sustentar. Falamos sobre gozo. Falamos sobre tensionamento e relações. Falamos sobre natureza, sobre ciclos. Falamos sobre a potência do múltiplo. Falamos sobre a memória do futuro. Falamos sobre luz e sombra. Falamos sobre revolução e resistência.


Falamos sobre como realmente não importa qual é o destino da sua arte-manual, se é uma galeria, uma loja, sua casa, a casa de alguém…o que importa mesmo é o durante, o processo. O que importa é se aquela peça foi feita com VIDA.


Elas me ajudaram a legitimar os meus sentimentos. Elas estavam ali para me mostrar que meu caminho é legítimo, que eu não preciso duvidar, porque é MEU caminho. E que elas estão caminhando também. Dessa vez senti um pulo gigante do meu ser para a confiança da minha própria experiência nessa alma, nesse corpo de Samantha e tecelã. Foi uma experiência sem volta.


Sai de lá uma outra mulher, outra tecelã, mais atenta, mais forte, mais confiante, mais corajosa, mais presente. E com muitos planos e ideias! ♥





Saí de lá com uma música na cabeça:


Las Curanderas - Laura Murcia


Con su falda de retazos

Remendaba el mundo entero

La costura es lo primero

En un mundo que se hace pedazos

Cuál recuerdo en su regazo

Sirve telas que vistieran

Ilusión por vez primera


Con trazos de un hilo fino

A los sueños y al destino

De una vieja costurera


Mujeres que en luna llena

Se asoman por la ventana

Y piden a la mañana el alivio de las penas


Mujeres que en los rincones

Adornan con fantasías y siembran sus alegrías en todos los corazones


En un caldo de verduras

Sasonaba su tristeza

Y ponía en la mesa un instante lleno de ternura

La tristeza es amargura

Si no tiene el condimento

De ese dulce sentimiento

Que una joven daba cuando

Despedía cocinando a su amor

A fuego lento


Mujeres que en luna llena

Se asoman por la ventana

Y piden a la mañana el alivio de las penas


Mujeres que en los rincones

Adornan con fantasías y siembran sus alegrías en todos los corazones

En todos los corazones


  • Samantha Capatti

Updated: Dec 19, 2019

Estava aqui organizando alguns trabalhos e encontrei um texto de uns 11 anos atrás, que escrevi para a disciplina de filosofia, quando cursava Design Gráfico - Comunicação Visual. Foi uma interpretação minha da terceira parte do livro “O Mundo como Vontade e Representação” do Schopenhauer.


Reler este texto foi muito gostoso pois me relembrou o quanto ele fazia sentido para mim. Mas o mais interessante foi perceber que esse assunto que mexeu tanto comigo no passado ainda está aceso dentro de mim depois de todos esses anos.


Vejo a minha relação com a tecelagem expressa neste texto que escrevi a 11 anos atrás, quando ainda nem sonhava em ser tecelã.


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Estudo da Terceira Parte do Livro

“O Mundo Como Vontade e Representação”

Arthur Schopenhauer


Na visão do mundo como objetividade da vontade, a vontade é considerada a

coisa-em-si (Kant), a substância, essência do mundo. A vida é o mundo visível, o mundo dos fenômenos, o mundo onde as ideias são objetivadas, onde a vontade é manifestada. A representação é a própria manifestação da vontade. A natureza é a vontade de viver objetivada. E onde a liberdade é a negação de toda e qualquer vontade.


A ciência procura respostas através da incessante e instável corrente de ralações entre causa e conseqüência. Não há um estado de plena satisfação, a cada objetivo conquistado há mais uma série de relações que te impedem a atingir um ponto, cada meta atingida é continuamente forçada para frente. Ficamos então presos ao nosso querer que nunca se sacia. O querer se origina da necessidade, portanto, da carência, do sofrimento. Enquanto nossa consciência for tomada pela nossa vontade, não possuiremos bem-estar, tranqüilidade nem repouso permanente.


A arte ao contrário da ciência isola um objeto à sua frente “conhece as ideias eternas nas coisas transitórias”, ela corta a vida movida pela razão em um ponto e torna esse ponto um objeto de contemplação até que o sujeito se torne puro do conhecimento e que o objeto se transforme em idéia pura.


Por um estímulo exterior, ou uma disposição interior nossa consciência desperta para a intuição e rejeita toda a vontade, toda expressão infinita do querer, “libertando o conhecimento do serviço da vontade”. Consequentemente compreendemos as coisas como livres de vontades. Nos abandonamos a elas enquanto representações e não enquanto cadeia de relações. Há uma perda de toda individualidade, nos perdemos no objeto em uma contemplação pura, nos guiando somente pela intuição. Assim elevamos o objeto à idéia de sua espécie, e o indivíduo cognoscente ao sujeito do puro conhecimento.


Assim esse sujeito abandonando a razão e todas as suas relações e se entregando ao puro espírito e à sua intuição e se torna um sujeito gênio. Porém essa genialidade é considerada um estado de espírito e não uma condição permanente. Logo o sujeito gênio abandonado de todas as relações se estabiliza até um determinado tempo em sujeito puro do conhecimento. Ele exterioriza-se momentaneamente de sua personalidade.


A diferença entre o gênio e os homens no qual esta faculdade é mais reduzida é somente o fato de que o gênio possui um grau muito superior e uma persistência muito maior na experiência de conhecer através das ideias. Fato que traz a vantagem de ter a concentração e a reflexão requirida para reproduzir em uma obra de arte a idéia do objeto a ser conhecido.


A arte é então a idéia refletida e objetivada que o artista, ou homem gênio, capta, durante a reflexão em seu estado de desapego do mundo da razão. Através dela, ele comunica a idéia apreendida. Esta permanece inalterada.


O prazer estético pode ser considerado essencialmente único em qualquer sentido, seja por meio da obra de arte, seja por uma intuição direta da natureza pois a idéia apreendida permanece sempre a mesma. O artista, através da contemplação, capta a essência do objeto transpondo sua ideia que essencialmente é a mesma.


Samantha Capatti Bezerra

Detachment from the reason world